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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Quando os poetas amam sinceramente…





Quando os poetas amam 
sinceramente
fazem do amor
poesia

Não se limitam a amar
tão somente
como toda a gente

Quando os poetas sofrem
verdadeiramente
fazem da dor
poesia

Não se resignam a sofrer
tão somente
como toda a gente

Quando os poetas amam 
sinceramente
não sofrem apenas suas dores
nem amam somente seus amores

Amam e sofrem
pelos demais
convertendo dores e amores
na divina fantasia
melodia de lamento e sofrimento
a que se chama poesia

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Se porventura não existis, ó Deus!



Triste é morrer sem saber porque se viveu!

Se porventura não existis, ó Deus!
então eu Vos suplico:
- Criai-Vos!

Não deixeis a tarefa de Vos criar nas mãos dos homens
que apenas têm sabido imaginar diabos e mais diabos

(Quanto a mim
se algum dia tive tal veleidade
já a perdi
na verdade)

Porque compreendi a minha total incapacidade
para por ordem no Mundo
e para minimamente entender o Universo

Eu não passo de um pobre diabo,
Senhor!
Que não sabe o que é o bem e o mal
e que anda no mundo por ver andar os outros

E que agora humildemente Vos suplica
e se lamenta:
- Se acaso não existis, ó Deus, então criai-Vos!

Para que ao menos possamos acalentar a esperança
de um dia sermos felizes num qualquer lugar
e de compreendermos os mistérios que nos envolvem

A começar pelo estranho princípio que nos faz nascer
sem que ninguém nos diga com que fim
e morrer
sem que ninguém nos pergunte se tal desejamos
e não nos diga para onde vamos

Mas se acaso entenderdes que a Vossa existência não é relevante
então
mesmo assim
não permitais que sejam os homens a governar o Universo

Vede só, Senhor
o que os homens estão a fazer a si próprios
e à própria Terra que os sustenta

Ó Deus!
Se porventura não existis
eu Vos suplico:
- Criai-Vos!



domingo, 14 de janeiro de 2018

Bem me queres, mal me queres




Tentas-me. Finges-te adormecida
Em leito florido de malmequeres
Bela, desnuda e oferecida
Tal a loucura com que tu me queres

Deixas a minha alma entontecida
Com a arte das sensuais mulheres
Que amansa a fera mais temida
E faz dos homens santos, vis berberes

Mas por tanto também eu te querer
Decido, porém, não te acordar
Não vá, com o espanto, te perder

De pronto dizes sem pestanejar:
«Bem me quer quem só assim me não quer!
Toda a ti, amor, me quero dar!»


sábado, 13 de janeiro de 2018

A que horas é o funeral?




Há Domingos assim
sem nada que fazer
em que apenas vivemos
por viver
tão pouco pensamos
em morrer

São dias de manhãs enubladas
de montanhas submersas
em que o Sol se passeia pelos campos
só lá mais para a tarde

Dias em que cada um de nós
tem um percurso próprio dentro de si
e outros com os outros
e todos outros mais
pelo mundo fora

Dias em que caminho um caminho privado
num mundo meu, privativo
onde vivo livre e cativo

Mundo em que tudo gira à volta de mim
num vórtice interior demolidor
aflitivo
que varre o próprio Universo
do espaço-tempo

Quando assim é
deixo-me ficar quedo
parado
com cara de enterro
a pensar
e a esfregar o nariz

Sem me sentir triste 
ou alegre
tão pouco angustiado
apenas cismado
devaneio

Como quando como hoje morre alguém
que pouco ou nada me diz
mas que ainda assim homenageio

A propósito:
 - A que horas é o funeral?


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Balada nupcial



Ouvi
de um sibilino espírito de virtude
que etéreo habita o mítico templo do conhecimento
esta sábia sentença, que assumi como fadário:
«Só o fogo do amor vence o frio da vida terrena
mantém o corpo ágil e livre do envelhecimento torpe
e rasga com luz a sombra da noite da morte.»

Deitei-me nu
com a minha amada desnuda
virgem imaculada
em alvos lençóis de linho cru
da cor da geada
em noite escura e fria de Inverno
à procura do fogo eterno
da felicidade

Logo ao primeiro beijo se inflamou o desejo
como se beberamos vinho
e os lençóis tecidos de áspero linho
se converteram em fina e rendilhada cambraia
e os corpos enlaçados em suave movimento
se iluminaram na obscuridade do aposento
da mais doce e sublime luminosidade

Acendeu-se a chama do amor no frio da noite escura
almas envoltas em vapor de ternura e paciência
sublime ignescência do fogo que arde e não queima
felicidade que não tarda e perdura
por tempo indeterminado

E os alvos lençóis de linho da cor da geada
transformados logo ao primeiro beijo
na mais fina e diáfana cambraia
ficaram rendilhados por fios do meu sémen quente e incolor
e pela cor carmim do sangue rosa da minha amada 
produto do nosso amor e desejo ardente

E o fogo do amor daquela noite de núpcias sentida
gravou para sempre nas nossas almas e mentes 
com fios de ternura, sémen e sangue rosa carmim
o destino e boa sorte que perdura pela vida
e que assim sobrevirá feliz para lá da morte




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Basta-me o teu olhar




Basta-me o teu olhar, sim, para começar
Que não me ignores, que não fujas de mim
Ainda que se de mim foges, inda assim
Mais esperanças me dás de me vir a amar

Se eu te olho com olhos de encantar
É só porque te quero bem, sem outro fim.
Olha-me com olhos de que estás afim
Então, sim, ver-me-ás a rir e a cantar

Mas se teimas em fugir e a não me ver
Nem assim a mim tu me farás desistir
Apenas aumentarás meu cruel sofrer

E se temes que eu esteja a mentir
Pára para me olhar e bem entender
Que o amor que sinto não é a fingir