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domingo, 28 de maio de 2017

Coisas que me dizes sem querer



Dizes-me coisas que nada me dizem
Coisas que a mim me fazem sofrer
Coisas que tu não dizes por dizer
Coisas que a ti só te contradizem

Coisas que tu me dizes sem querer
Coisas que os teus olhos bem desdizem
Coisas que contigo não se condizem
Coisas que tu dizes, mas a doer

Coisas que a ti dizes sem saber
Coisas p`ra que meus olhos ajuízem
Coisas de bem-querer, é bom de ver

Coisas e sorrisos a desdizer
Coisas que de ti mesma tão bem dizem
Coisas e coisas só p`ra me prender



sábado, 27 de maio de 2017

Se os poetas amassem sinceramente…




Se os poetas amassem
sinceramente
não fariam do amor
poesia

Limitavam-se a amar
tão somente

Se os poetas sofressem
realmente
não fariam da dor
poesia

Limitavam-se a sofrer
como toda a gente

Os poetas só são sinceros quando escrevem poemas de combate
sejam de amor
ou de dor
com os quais pelejam
por toda a parte

Os poetas, porém, não sofrem só suas dores
nem amam só seus amores

Jamais!

Os poetas amam e sofrem
com as dores
e os amores
dos demais



quarta-feira, 24 de maio de 2017

O único reparo que faço a Deus




O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem substituir as estrelas no céu
sempre que alguma se avaria

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem polir
e dar mais brilho à Lua
sempre que o firmamento
se obscurece

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para as mães poderem acariciar os seus filhos
quando estão ausentes.

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem abraçar
de uma só vez
toda a Humanidade

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem plantar árvores
nos outros planetas que giram na galáxia

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem apertar a Sua mão
lá no céu
a partir da Terra



sábado, 20 de maio de 2017

Há amar e amar, há partir e ficar







Especado no cais
hesito entre partir e ficar
ir atrás do seu olhar

Abstraio-me

Dou asas ao coração
mergulho na sua imagem
no reino da ilusão

Inunda-me uma vaga de desejo
venço a onda do embaraço
passo à acção
à palavra
ao beijo
ao abraço

Afirma-se a paixão

Sinto que ela me quer
que não é miragem

Será que existe?

Ela insiste

Especado no cais
hesito entre ficar
e partir
ir atrás do seu olhar

Não sei para onde me leva
nem para onde ela vai

Há amar e amar
há partir e ficar



sexta-feira, 19 de maio de 2017

A insana ânsia de imortalidade




Leva-nos para lá da morte

A ânsia de imortalidade

A insana procura da verdade
que nos leva a morrer
e a matar

É a insana ânsia de imortalidade
que nos faz cantar
bailar
amar
escrever
sofrer
tentar a sorte

É mais que vaidade
querer perlongar o viver
desejo de fama

Emerge do âmago do nosso ser

É Deus que nos chama



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Caí de um buraco do céu



O céu
é só o tecto do mundo
feito de nuvens e de sonhos
e ponteado de estrelas

Tecto com buracos por onde escorre a chuva
quando os anjos obreiros andam a lavar o além
a mando de Deus
e revoadas de pássaros se escapam do paraíso
para vir alegrar os ares

Foi de um desses buracos que eu caí
em dia de trovoada
numa noite iluminada
por relâmpagos de poesia