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terça-feira, 14 de novembro de 2017

No reverso do universo




Nada do que sonho
ou imagino
existe em lado nenhum

Dentro de mim há miríades de outras entidades
ideias
sonhos
fantasias
angústias
irrealidades
que eu não consigo expressar em nenhum dos poemas que escrevo
porque não existem na Terra
no umbigo do Sistema Solar
o mundo de verdade

Eu vivo no reverso do universo

É esta a raiz da minha crónica ansiedade


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

E a si, que lhe diz este poema?







Escrevo este poema
deliberadamente
sem nada ter em mente
sem ter nada que dizer
e sem querer dizer nada

Eu não quero dizer mesmo nada
tão pouco nada desdizer

Escrevo-o por escrever
não por inspiração ou frustração

Escrevo este poema só para dar o prazer
de ler o que lhe apetecer
a quem o quiser ler

Só para lhe dizer o quanto podemos dizer
sem dizer nada
ou nada dizer

Este o mor dilema!

Este poema a mim não me diz nada
mesmo nada
nada me diz
diz-me nada

Mas será que se nada me diz
já me estou a desdizer?

Que lhe diz, a si, este poema
ainda assim?

Muito
pouco
tudo
ou nada?

Se a si muito lhe disser
mais a mim me há-de dizer


domingo, 12 de novembro de 2017

Colhendo poemas directamente das árvores





O benefício maior de se viver no campo
é podermos ir ao pomar
colher poemas directamente das árvores
sempre que nos apetecer

Quando não são as aves que no-los trazem
adejando à nossa volta
e chilreando melodias

Ou o Sol
ou a lua
ou as estrelas
que com os seus raios de luz escrevem eles próprios
os versos
na nossa alma

enquanto nós nos limitamos
a ler
deslumbrados

E quando pela manhã abrimos a janela
e descobrimos que não temos nenhum sítio para aonde ir
nada mais que fazer
atiramos um punhado de milho aos pardais
e pomo-nos a escrever




sábado, 11 de novembro de 2017

Aponto-lhes um poema à cabeça e disparo




Acabo com eles
com poesia
e é de vez

Aponto-lhes um poema à cabeça
disparo
e pronto
tudo se consuma
em alegria
talvez

Que descansem em paz
e sem dor
os imundos senhores do mundo

Dissolvam-se-lhes os ossos no tempo
dilua-se-lhes o sentimento
na morte
triunfe o vento
do amor

Com um pouco de sorte
a liberdade continuará a soprar
sobre a Terra
enquanto houver ar
para respirar
pão para comer
poesia para compor
e sonhos para sonhar

Os maiores
são tão pequenos como nós

Só o Amor é grande

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A dor de amor é mais dor e mais dói




A dor de amor é mais dor e mais dói
se é só nossa e é interior

A dor de amor é maior e mais dói
se não temos ninguém
um amigo, um pai, uma mãe
com quem desabafar
e que confortar
nos possa

A dor de amor é mais dor e mais dói
se gritamos ao vento o nosso lamento
e nem o vento nos quer escutar

A dor de amor é mais dor e mais dói
quando só nós
de nós
sentimos pena

Mas a dor de amor é menor e menos dói
se a dor de amor
dói num poema


sábado, 4 de novembro de 2017

Se porventura não existis, ó Deus!



Ó Deus!
Triste é morrer sem saber porque se viveu

Se porventura não existis
(Para gáudio daqueles que em Vós não acreditam quando tal for evidente
Já que os crentes vão continuar a acreditar, existais ou não)
então eu Vos suplico:
- Criai-Vos!

Não mais deixeis a magna tarefa de Vos criar nas mãos dos homens
que apenas têm sabido imaginar diabos e mais diabos

(Quanto a mim
se algum dia tive tal veleidade
já a perdi
na verdade)

Porque compreendi a minha total incapacidade
para por ordem no Mundo
e para minimamente entender o Universo

Não passo de um pobre diabo,
Senhor!
Que não sabe o que é bem ou mal
e que anda no mundo por ver andar os outros

E que agora humildemente Vos suplica
e se lamenta:
- Se acaso não existis, ó Deus, então criai-Vos!

Para que ao menos possamos acalentar a esperança
de um dia sermos felizes num qualquer lugar
e de compreendermos os mistérios que nos envolvem

A começar pelo estranho princípio que nos faz nascer
sem que ninguém nos diga com que fim
e morrer
sem que ninguém nos pergunte se tal desejamos

Mas se acaso entenderdes que a Vossa existência não é relevante
então
mesmo assim
não permitais que sejam os homens a governar o Universo

Vede só, Senhor
o que os homens estão a fazer a si próprios
e à própria Terra que os sustenta

Ó Deus!
Se porventura não existis
eu Vos suplico:
- Criai-Vos!

Por misericórdia!