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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O maior acontecimento da minha vida




Não sei onde estava quando nasci
nem donde vim
nem o que vim cá fazer
embora fosse o maior acontecimento da minha vida
e eu estivesse lá
acabadinho de nascer
vindo algures de além
vogando no ventre de minha mãe

Eu estava lá quando nasci
apesar de não me lembrar
e de estar certo de que todos se alegraram
e que foi minha mãe que sentiu maior alegria
apesar das dores de parto

Eu sei estava lá quando nasci
e que apenas eu chorei
porque me doía a vida
sem perceber
o que me estava a acontecer

De mim não me aparto
toda a minha vida morei comigo
hora a hora
na mesma rua
na mesma casa
no mesmo lugar
a saltar de terra em terra
em tempos de paz e de guerra
mas continuo a não me conhecer
a não saber quem comigo mora
e que muda
a cada instante

Não sei donde vim
nem onde estou
nem para onde irei a seguir
apenas sei que sou
um ser mutante

E também sei que já não estarei lá quando morrer
e que serei o único a sorrir



domingo, 15 de outubro de 2017

Rosas remanescentes



A quinze de Outubro
dia do teu aniversário
caminharemos de mãos dadas
gozando os derradeiros raios de sol do dia
que inunda o espaço de poesia
neste mês de Brumário

Raras rosas das roseiras raras
de que trataste com enlevo na Primavera
e que continuam a “rosir”
ainda iluminam de cor os canteiros
como se fossem sorrisos permanentes

A lembrar-nos que a vida será um amor eterno
se assim quisermos
mesmo que saibamos
que caminhamos para o Inverno
e já não somos adolescentes

Também já as romãs sorriem
de contentamento
desafiando os ouriços nos castanheiros
mas só os pinheiros e as oliveiras continuam folheadas
porque o seu verde é perene

Todas as demais árvores
já se despedem das folhas amarelecidas
sem lamento
entristecidas de tristeza estreme
porque em breve serão despidas
pelo vento

Como os diospireiros surreais
já completamente desnudados
feericamente emoldurados de vistosos dióspiros
encarnados
carnais
condenados a apodrecer
dilacerados pelos pardais
como se fossem inconsequentes suspiros
dependurados ao tempo
teimando em não morrer

Mas eu quero que este efémero momento
de amor aberto e suave alegria
fique melhor registado
que numa máquina fotográfica
ou numa câmara de cinema

Prefiro usar o dom da poesia
e gravá-lo em poema
que para lá da imagem e do som
melhor regista afecto
e sentimento



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eyjafjallajokull



Lá na distante e fria Islândia
uma mulher frívola e fulva
linda como a Lua
cavalgava nua
montada no cavalo de desejo
à procura de alguém
que lhe desse um beijo

E tão forte era o seu desejo e o seu trotear
que o vulcão Eyjafjallajokull acordou
e de imediato se pôs a ejacular
lava e cinza vulcânica
que obscureceu os céus da Europa oceânica
com véus de ansiedade

Foi quanto bastou
para que os europeus não pudessem respirar
e os aviões deixassem de poder voar
até que vulcão Eyjafjallajokull amainou

A Mãe Natureza manda na Terra de verdade
pare o homem de a provocar


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Quando o homem sonha desperta fantasmas




A luz da Lua
coada pela neblina
não chega sequer a ser
luar

É tremulina
a tremeluzir
nas águas do lago
que a brisa faz ondular

Eu e minha amada
cantamos
e dançamos
nus
de mão dada
até de madrugada

Qual faunos fosforescentes
por entre as árvores despidas
despudoradas
plantadas
hirtas
no nevoeiro

Até que fantasmas mudos
nos gritam que já passa da meia-noite
que são horas dos humanos dormir
e eles querem livre o terreiro

De nada nos vale terçar armas
o seu império é o cemitério

Regressamos a casa
cabisbaixos
sem um sorriso
resignados
calados
com vergonha
como se fôramos expulsos do Paraíso

Quando o homem sonha
desperta fantasmas


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Amor morno de Outono



Perde o Verão seu entono
a partir do nono
mês

Quando o Outono sazão
faz valer o brilho
da sua palidez

As andorinhas
ladinas
rumam para sul
o silêncio tomba
no paul

O rebanho deserta
da sombra do negrilho
onde dormia a sesta
em busca de erva tenra
para tosar
nos campos já a verdejar

Diga-se em abono
da verdade
que o Outono
com sua morna cor
é uma festa
com bandos de folhas de esquecimento
a voarem pelo ar

É tempo de sonhar
sonhos de amor
embalados pelo vento

É tempo de amar
tempo de matar
a saudade




sexta-feira, 29 de setembro de 2017

No auge do Verão







Inesperadamente
Milhares de borboletas brancas
Predominantemente
Também raiadas
Coloridas
Delicadas
Saídas de todos cantos
Dos nadas
Tomaram conta do jardim

Saciadas da sede de amor
E de água
Apenas lhes apetece voar
E são tantas
A esvoaçar à minha roda
Que já nem há mais espaço para onde ir
E eu não tenho outro remédio
Tão despudorado é o assédio
Senão deixar os meus poemas
Voar com elas
Saltitando por entre as rosas
E o jasmim


É tempo de festejar o auge do Verão
Antes que o vento frio de Outono
As faça cair de novo no sono
Hibernal
Regressando aos cantos dos nadas
De onde vieram
Para por lá ficarem pasmadas
Larvares
Monstruosas

Os meus poemas permanecerão acordados
Durante todo o ano
Engravidados de poesia
Sempre a adejar
Em torno de mim

Já sinto a nostalgia


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Melhor será não morrer já



Paredes meias
com o templo
do sentimento
aqui deixo este circunspecto concreto de ideias

Que é tempo e contratempo
melopeia de sereias
castelo sem ameias

Angústia larvar
a germinar
no ar

Melodia
fantasia
poesia

De mal ando eu com a vida
por amor à poesia

De mal com a poesia
por amor à vida

Melhor será não morrer
nem herói nem vilão
nem de ataque de coração

Continuar a viver
a sentir o que sente
toda agente

Esta teimosia de sonhar
de respeitar a lei
e cagar no rei
demente

Só anarquia é democracia

Bem sei!



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Valquíria Sigrdrifa







Sinto-lhe o sopro
Finjo-me morto

Beija-me a pele
Besunta-me de fel

Beija-me os pés
Para mos decepar

Beija-me as mãos
Rói-me os dedos
Rouba-me os segredos

Beija-me os ouvidos
Para me ensurdecer

Beija-me a boca
Para me emudecer

Beija-me o sexo
Para me capar

Beija-me o coração
Exangue
Chupa-me o sangue

Beija-me os olhos
Para as lágrimas
Me sugar

Beija-me a face
Para me desfigurar

Está escrito
Resisto

Beija-me de morte
Sem me matar

Quer-me vivo
Nem morto nem vivo
Seu quero ser

Vá para onde eu for
Sigrdrifa me persegue
Com ardor

Beija-me a alma
Sugar-me o espírito
Não consegue

Sou um guerreiro invicto
Jamais um proscrito


in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Quando a alma me dói




O corpo
quando me dói
dói-me por partes
nunca me dói todo
inteiro
apenas em parte
me dói

Dói-me um pé
uma mão
o peito
o coração
cada um com sua dor

E quando sinto prazer
também sinto por partes
com distintas formas de gozar
cada uma com suas artes

Sinto o tacto
o sexo
o sabor
o olfacto
o ouvido
o olhar

Mas a minha alma quando ama
ou sente dó
sofre e ama inteira
toda
verdadeira

Porque a minha alma é una

Única

Uma só




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

AQUI…




Aqui, cume do monte dominante
De um reticulado curvilíneo
De colinas moldadas no fascínio
Da alma do poeta diletante

Aqui, nasceu, em mim, a poesia
Pela magia do amanhecer
Com reflexos de fé e bonomia
Que também brilham ao entardecer

Aqui, sempre me quedo, radiante
À hora que o Sol se põe, sanguíneo
Por detrás do horizonte distante

Aqui, face ao Mundo a sofrer
Ao Senhor dos Aflitos eu pedia
Não deixasse, Ele, de lhe valer…

Vale de Salgueiro, domingo, 10 de Agosto de 2008
Capelinha do Senhor dos Aflitos (Alto da Serrinha)



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ainda há lágrimas por chorar, Hiroshima



Ainda há lágrimas por chorar
Hiroshima

Ainda há holocaustos por exorcizar
não é ainda a Paz
que os homens anima
é já tempo de parar

Tempo de por fim à fome e à guerra
à mentira e a miséria
à política falaz
que assola toda a Terra

Já é tempo de fazer valer a Verdade
tempo de quem já nada espera
voltar a ter tempo de acreditar
tempo de gritar
Liberdade

Tempo de os homens serem homens
e de os homens serem
Humanidade

É já tempo
antes que seja tarde



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O pecado original






Contesto o Teu critério, ó Criador
De expulsar Adão e Eva do Paraíso!
Se foi Eva a causadora do prejuízo
Porque não expulsá-la só a ela, Senhor?!

Continuaria, assim, o homem, sem dor
A viver no Éden, em seu perfeito juízo
E a mulher na Terra, se eu bem ajuízo,
Mais feliz do que é, sem o homem por tutor.

Ou será que Adão quis Eva acompanhar
Tão ardente era a loucura da paixão
E nem Vós, Senhor, os conseguistes separar?!

Se assim foi, então, tendes toda a razão!
Só àqueles que aprenderem a bem amar
Vós abençoais e concedeis a Salvação.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para onde vás Luís Vaz





Não me admiro que Luís Vaz, o imortal Camões
tenha morrido na miséria

Indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique

a mítica  ilha do mar Índico
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
no regresso do Oriente
onde se fez épico

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
nalgum armazém de históricas banalidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
que nele não viu outra utilidade

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a minha desilusão
mais arde

e os sentimentos de ser português
e de como Camões também pertencer
aos Vaz de Vilar de Nantes
mais se acendem
frustrantes

Luís Vaz enquanto poeta foi um inútil
embora tenha deixado de o ser
quando a genealidade da sua poesia
gerou ventos e marés
e construiu auto-estradas de sonho

Foi um verdadeiro indigente
que não ganhava nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que com mais acerto, por certo
lavrava a terra ou caiava paredes

Era um sem-abrigo
semi-anjo
quasi-deus
um extraterrestre sem interesse
a quem o soldo não bastou para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era poeta e soldado


Era onde havia projectos de verdade

de sonho, amores e mistério
e poesia

que um dia
foram Império de humanidade

Hoje em dia sem utilidade
tanto quanto sei

Para onde vás, Luís Vaz
ou fores
lá estarei



domingo, 6 de agosto de 2017

Ceara ondulante, crina de mulher



Mar de virtude
e de puro engano

Oceano de perfume
em que mergulham meus dedos
e se afundam
em mil ternuras
sem medos
de se afogar

Ceara ondulante
liana enleante
crina de égua a relinchar
ululante
de prazer

Corda de cítara
a gemer
que me delicia dedilhar

Cabelo de mulher…

que sublime prazer
me dá
afagar



sábado, 5 de agosto de 2017

Cento e cinquenta e seis badaladas






Cento e cinquenta e seis badaladas concertadas
o dia tem
mais a melodia que o nosso coração
bate no ventre de nossa mãe
que ela ouve
mas nós não ouvimos não

Doze badaladas que o coração bate ao meio dia
como cão a latir

Ruidosas
apressadas
pressurosas
a fugir
a saltar fora do peito
a viver sem jeito
fora de si

Doze badaladas que o coração bate à meia-noite
como vento a rugir
já fora de tempo

Langorosas
arrastadas
pesarosas
até parar
e cair
no esquecimento

Mais as badaladas silenciadas
quando dormimos
ou não sentimos
o coração bater por ninguém

Cento e cinquenta e seis badaladas compassadas
o coração bate hora a hora
dia a dia
mundo fora
aqui
ali
além
embora não saibamos quantos dias
a vida
sofrida
tem



sexta-feira, 28 de julho de 2017

Pólen de poesia






Aguardo ansioso
o eclodir da próxima Primavera

À espera que as plantas desabrochem
para também eu espalhar poemas no ar
deixando que os meus versos
se diluam nas gotas do orvalho matinal
e se transformem em grãos de pólen
que levados pela brisa primaveril
nos bicos das aves
e nas patas das abelhas
penetrem nos gineceus das flores
e as engravidem

E assim a Primavera
quando florir o mês de Abril
terá a cor
a luz
o som
o sabor do amor juvenil
e a alegria
da minha própria poesia