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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Caí de um buraco do céu



O céu
é só o tecto do mundo
feito de nuvens e de sonhos
e ponteado de estrelas

Com buracos de tentação
por onde escorre a chuva
quando os anjos obreiros lavam o além
a mando de Deus
e revoadas de pássaros sem juízo
escapam do paraíso
para vir alegrar o ar

De um desses buracos caí
em dia de trovoada
numa noite iluminada
por relâmpagos de paixão
vaidade
e fantasia

Ao céu
onde mora a felicidade
procuro agora em vão
regressar
pela escada da poesia



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Portugal morreu, a minha Pátria, não!




Portugal morreu!


Jaz morto às mãos da corrupção
e das teias que ela teceu

A minha Pátria, essa não!

Minha Pátria é o meu povo
a Língua que fala
a História que conta
a Verdade e a Democracia
e toda  a sua poesia

A minha Pátria não é afronta
terreiro de paço
espaço de intriga e traição
políticos,  banqueiros e outros vilões
os coveiros da Nação

A minha pátria é Camões
é Gama
Vieira e Pessoa
Santo António de Lisboa
do Quinto Império nostalgia
futuro que o povo reclama

É o meu Trás-os-Montes natal
suas lágrimas, suas fontes
meu Santo Graal

Portugal morreu
às mãos da corrupção
feito fogo e fumo
terra queimada
Nação emigrada
gente que chora
à procura de novo rumo

Portugueses, é agora!


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ser livre é viver feliz







Eu próprio
em liberdade
me sinto numa prisão
infeliz

Numa gaiola maior
do tamanho da Terra
com grades de angústia

Por isso lhe daria a liberdade
se tivesse a garantia
de que livre
sobreviria

Porquê condená-la à morte
prematura
se a sei feliz a chilrear
enquanto viver
nesta postura?

Acabará por morrer

Pois então que morra
mas que morra livre
e verdadeira

Que aprenda que ser livre
é viver feliz
mesmo prisioneira



domingo, 18 de junho de 2017

Se eu fosse árvore, amor.



Se eu fosse árvore, amor
e tu me abraçasses
os meus poemas seriam flores
as folhas louvores
e os filhos frutos

Havia de florir pela Primavera
e dar guarida a todas as aves
que tu mimasses
e que nos meus ramos quisessem nidificar

Deixaria que a aragem
me agitasse a folhagem
convidaria os passantes
de terras distantes
perdidos na paisagem inclemente
a que sob mim se abrigassem
do Sol ardente

Se eu fosse árvore, amor
mas não merecesse o teu cuidado
murcharia desolado
pelo Inverno

Deixaria que o machado do lenhador
despedaçasse o meu tronco terno
e me apartasse os ramos em molhos
para alimentar outros fogos de paixão
que não este que ateias no meu coração
com o carvão dos teus olhos



terça-feira, 13 de junho de 2017

Os poetas são como os pássaros




Os poetas são como os pássaros
passam os dias a cantar
à espera da Primavera
para poderem amar

A Primavera dos poetas é como o vento
não tem hora de chegar
e quando chega
se chega
ninguém sabe quanto tempo
irá ela durar

As penas dos poetas não são penas de voar
são poemas
são dilemas
pesadas penas
de tanto se angustiar

São plumas coloridas
com a cor do amor
a principal cor
da paleta do poeta

São alegrias fugidias
são versos
são poesias

Os poetas são como os pássaros
passam os dias a cantar
procurando
em vão
seu coração alegrar
sempre tristes
por não saberem voar





quinta-feira, 8 de junho de 2017

Poema de fazer a barba




Muitos dos meus poemas
afloram frente ao espelho
quando me barbeio

Enquanto a vista se fixa em cada pêlo
que a lâmina vai cortar
eu
no meu eu me enleio
em pensamento
nos morfemas e lexemas
em poético devaneio

E lamento
quantos se pelam
e depilam
sem apelo
nem agravo
capazes de matar
e morrer

Quando há na vida
tantos poemas
e dilemas
para cortar
e recortar

Ou simplesmente
para deixar crescer



domingo, 4 de junho de 2017

Poema escrito com a tinta do meu coração




Escrevi umas tantas palavras
com a tinta do meu coração

Que verti em taça de cristal
à hora do meio-dia
quando o Sol está mais vertical
tal a paixão que em mim ardia

Enchi, depois, esse vaso cristalino
com luar
tal era o meu desejo de a amar

Ela pensou que era apenas perfume
que eu lhe oferecia

Aspirou-lhe, de pronto, o aroma
e tomou-lhe o sabor
sem se aperceber
que era um filtro de amor
que a incendiava com o lume divino da paixão
sem outro remédio nem contrição

Verti
por fim
tais palavras de poesia
com alegria
no rio do nosso destino

Assim a seduzi
a ela
e me redimi
a mim



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Nem sei se ainda por cá ando ou se já me fui embora







Esta melencolia que me assola
em dias de chuva aborridos
ou quando o sol poente
me deixa lânguido da saudade
de quem anda ausente
estando embora presente
é uma tristeza deliquescente
mais própria dos vencidos

Abandono-me à nostalgia emergente
e paro de me angustiar
viro as costas às perguntas do costume
que sei
de antemão
não terem respostas

É quando uma morrinha miudinha
me toma os sentidos
a ponto de não me sentir nada
nem ninguém
nem magma
nem matéria
em nada materializado
em nenhum estado de espírito realizado
ocaso ou aurora

Fico sem saber se ainda por cá ando
ou se já me fui embora
se a poesia é coisa séria
ou não passa de uma pilhéria

Até que o ensejo de um bocejo
me faz despertar dessa sonolência demente
e retomar a vida corrente